segunda-feira, 31 de março de 2014

O meu 25 de Abril (32)

Após os acontecimentos de Outubro de 1972, com a morte de Ribeiro Santos, jamais houve "sossego" nas diversas faculdades. A minha memória não chega para recuperar todos os acontecimentos de caracter académico, anti repressivos ou mesmo de cariz político que se passaram no Técnico nessa altura. Entrava no ano lectivo 72/73 para o terceiro ano, o célebre terceiro de electricidade, e a sucessão de acontecimentos que conduziram à anulação desse ano lectivo é imparável, qualquer diferendo com professores, avaliações, conduzia a sucessivas RGA, a formas de luta e greve a provas ou exames, mas agora, o conteúdo político era mais intenso e já extravazava a escola. Eu apesar de estar no terceiro ano tinha ainda uma cadeira do primeiro em atraso, Análise Matemática II, que tinha necessáriamente de fazer nesse ano, pois corria risco de prescrição, o que ocorria ao terceiro chumbo, e impedia de pedir adiamento ao serviço militar o que implicava incorporação imediata.  Felizmente acabei por fazer essa cadeira em Fevereiro de 1973, e o pior passou, mas entretanto os diversos acontecimentos, levaram a que a polícia de choque se instalasse de armas e bagagens no interior da erscola, onde chegava todas as manhãs e só saía ao fim da tarde, para evitar qualquer manifestação de contestação. Era a repressão em si mesma, e era a solução "pedagógica " para todos os males. No entanto a contestação continuava, as aulas eram interrompidas, exames boicotados, um grupo de 20 e poucos alunos foram expulsos, durante 1973, o que agudizou as lutas, e tornou o ambiente irrespirável. Para controlar o que se passava nas alamedas do Técnico, o novo director Sales Luís, mandou instalar câmaras de filmar nos telhados, e quando havia ajuntamentos ou contestações ruidosas, o Sales, que até tinha sido um bom professor, mandava um seu acólito subir aos telhados e filmar o que se passava. Mas ainda não se conhecia o comando à distância nem as câmaras portáteis, pelo que dava muito nas vistas e aumentava a fúria da estudantada. Um dia o pessoal "passou-se" subiu aos céus, e eis que a câmara voou do telhado, aterrando em estilhaços no calçadão !!! Foi a gota de água...
Este director, que só saiu no 25 de Abril ficou tristemente conhecido por Bufo Sales. E assim se perdeu um bom professor, amigo de Louis de Brooglie, autor dos manuais de Fisica decentes pelos quais estudávamos, que tinha um assistente que tinha sido o melhor aluno do Técnico dos ultimos anos, António Guterres, que ainda foi meu professor de Física II, único assistente a quem o Sales permitia dar aulas teóricas. Mas a situação só piorava, e em Maio de 1973, se a memória não me atraiçoa, para dominar a situação que nem com polícia lá ia, o Sales decidiu anular o ano lectivo, encerrar a escola e mandar tudo para casa de férias antecipadas. A partir daí começou a comunicar com os alunos através de cartas que enviava para casa, para alertar os pais da situação em que a escola estava, como se todos fossem meninos do liceu. O macacal apanhou-se de férias e foi engrossar a contestação em outras escolas, reunindo as comissões de curso em Medicina, escolhida sempre porque a mistura de escola e hospital, e o seu caracter labirintico, impedia a policia de actuar pois todo o publico entrava no Hospital de S. Maria, e não se podia distinguir os estudantes. Começava agora um perído negro em que o Técnico já não abriria normalmente até ao 25 de Abril, transformando-se sob a batuta de Sales Luis numa escola- prisão. Depois explico como !!!

domingo, 30 de março de 2014

Youngest

Utilizando a técnica de pintura do gampi-transfer aqui fica a imagem da minha mais nova filha de todas (são só duas) Joana de seu nome, "nurse" de profissão agora no seu novo poiso, o Royal Brompton Hospital, a caçula, como se diz apropriadamente lá mais para o sul do equador. Espero que apreciem o esforço, e que não achem demais as duas joaninhas que procuram sobrevivência no mar amarelo quando muitas outras foram submergidas.

O meu 25 de Abril (31)

Já aqui referi através dos Cadernos D. Quixote, o contributo desta editora, entre muitas outras, e de Snu Abecassis, para um ambiente mais esclarecido, mais informado, e o combate que travou através da sua editora, contra o obscurantismo. Hoje quero referir uma outra iniciativa da D.Quixote, para pôr na mão de muitos portugueses autores que ou não estavam disponíveis, ou não tinham tido acesso ao grande público de uma forma tão vasta, e sobretudo tratando-se de poesia. Estou  falar dos "Cadernos de Poesia" que a editora começou a publicar no inicio dos anos 70, e que permitiu de forma sistemática fazer chegar ao grande público, autores valiosos, portugueses e estrangeiros, através de uma edição barata, com formato popular, e sem constrangimentos. Uma iniciativa desta editora, que publicou os maiores escritores contemporâneos nesses pequenos cadernos, deste Carlos Oliveira, Alexandre O´Neil, Vinicius de Morais, Ramos Rosa, Ruy Belo, Natália Correia, entre muitos outros. As capas eram coloridas, a edição cuidada, salientavam-se quando colocados nas montras das livrarias, e nessa altura havia "mesmo" livrarias, e não "supermercados de livros", onde donos de livrarias procuravam fazer o "marketing" do seu produto, e custavam entre 20 e 25 escudos cada livrinho, em média com 100 páginas. Foi mais um contributo para o meu 25 de Abril, pois gente que lê poesia é gente melhor, mais livre, com mais pensamento, pois a poesia forma a sensibilidade do leitor, coisa que a ditadura dispensava. Para essa gente, saber as quatro operações básicas, ler e contar até 10 seria cultura mais do que suficiente. Poesia era só para formar mais agitadores...

sábado, 29 de março de 2014

Vida normal

Chuva, frio, humidade, em principio de primavera, o jncómodo que me perturba, um dia depressivo. As pernas parecem não querer andar, os olhos parece não quererem ver, a dor não deixa esquecer, uma vida normal afinal.

sexta-feira, 28 de março de 2014

O meu 25 de Abril (30)

A "autorização de saída" era imposta a todos os jovens que pretendiam viajar para o estrangeiro, quando estes se encontravam em idade militar, isto é a partir dos 18 anos. Assim quando no verão de 1972 imaginei poder vir a fazer uma viagem ao exterior, pois era preciso passar além dos Pirinéus para respirar, era necessário obter o passaporte, o qual era passado por periodos curtos, não é como agora, e para sair caso se estivesse em idade militar, era preciso obter uma autorização, a qual era pedida no DRM, Departamento de Recrutamento Militar, e era concedida, ou não, após análise caso a caso. Era uma forma de ter a "pata" sobre os jovens, procurando dificultar a sua saída, dado o risco de não voltarem, por isso a emigração tinha de se fazer "a salto". Esse documento tinha de acompanhar o passaporte na saída, e sem ele seriamos retidos na fronteira. Aí a PIDE, que também controlava as fronteiras, ficava com o documento de autorização, o qual era válido apenas por 3 meses, e devolvia uma parte destacável e que seria guardada religiosamente pelo "viajante", para devolver no acto de regresso, que tinha de se fazer dentro do prazo de validade da dita autorização. Depois a PIDE casava o documento de saída com o de entrada para se assegurar que o jovem não se tinha "pirado", sendo nesse caso considerado "refractário" e caso regressasse seria preso e incorporado à força no serviço militar. Comigo aconteceu que tendo pedido a autorização não a utilizei pois acabei por não sair. Passado alguns meses uma brigada da PIDE visita a minha casa, onde por acaso não estava, mas inquiriu os meus pais sobre qual tinha sido o meu destino, e se tinha saído do país. Claro que ficaram assustadissímos, pensando "no que é que o meu filho anda a fazer", pois era uma visita indesejável a qualquer família portuguesa. Desta nada aconteceu, mas fiquei bastante desconfiado, pois embora não tivesse qualquer actividade política, era um estudante activo, e que a nível estundatil procurava participar dentro das minhas possibilidades, pois agora trabalhava também, nas actividades do Movimento Associativo. Afinal a PIDE controlava mesmo, e não só os "comunistas" era tudo o que mexesse, todos os que puxassem pela cabeça, todos os que quisessem intervir, ver e participar "out of the box", como se diz agora, fosse quem fosse. Afinal todo o país parecia mesmo uma prisão.

quinta-feira, 27 de março de 2014

Senhor Macedo

Oportuno como sempre o Senhor Macedo respondeu à Dona Ofélia. Pois a solução está lá à mão de semear e é fácil, e óbvio, e baseia~se no principio de ir " a montanha a maomé", ou seja a solução está na consulta domiciliária. Concordo. Só peço ao Senhor Macedo que reflita sobre a seguinte questão, "se era assim tão simples, porque é que foi preciso a televisão mostrar para que o problema se resolvesse ?". Quantas Donas Ofélias e suas filhas com incapacidade estarão pelo país escondidas em casa por não terem a SIC para as mostrar ?

Campestre

Hoje o dia amanheceu enfarruscado e não me admirava que chovesse. Assim recupero uma foto campestre de ontem. à tarde por ali entre Garvão e Santa Luzia, duas freguesias que agora são só uma, os campos apresentam uma coloração por agora apenas amarela, desta erva que é semeada para alimentar o gado após recolha mas que na primavera pinta os campos e enche as narinas, respirável para quem não tem alergias. As coisas não acontecem por acaso e esta "tremocilha" é mesmo semeada e dá um aspecto de tapete para onde nos apetece lançar. Assim se pintam os campos. Em breve outras cores surgirão.

quarta-feira, 26 de março de 2014

Uma capela ali à mão

Hoje em Santa Luzia, aldeia aqui do concelho, umas escadinhas dão acesso a uma capela que parece confundir-se com as próprias casas, as flores indicam o cuidado de mãos que as mantêm. A capela está ali à mão embora fechada, como estão muitas que só abrem uma vez por outra ao longo do ano, por falta de quem assegure uma presença que dê segurança. Gosto destes recantos que apesar de tudo mostram que há alguma vida, o sagrado e o profano juntam-se numa unidade afectuosa.

terça-feira, 25 de março de 2014

O meu 25 de Abril (29)

Neste percurso pelo meu 25 de Abril, ou seja o processo de anadurecimento pessoal que conduziu ao meu dia 25, e cada um teve o seu, fazemos hoje uma paragem numa pequena publicação que comprei sempre até aos dias de Abril. trata-se de uma pequena revista, que começou sem grandes ambições em Dezembro de 1969, e manteve uma publicação regular durante anos.  O seu primeiro número trazia na capa Francisco Fanhais, que ainda hoje canta com o mesmo espirito desses anos, Trata-se da revista Mundo da Canção, que começou com a publicação de letras das canções, nomeadamente aquelas cujo conteúdo era mais significativo, depois foi produzindo artigos que faziam a cobertura de eventos musicais, entre outros, sempre numa perspectiva progressista. A revista era mensal, publicava-se a partir do Porto e suportava sempre os eventos mais interessantes na actividade da musica e musicos de intervenção, e de alguma musica anglo-saxónica. A partir de certo momento a revista começou a publicar contributos dos seus leitores, nomeadamente no domínio da poesia, espaço coordenado por Viera da Silva, ele próprio escritor e musico, e foi lá que acabei publicando alguns textos que produzi nos meus 18 ou 19 anos, que regularmente a revista publicava, e que mantive até ao 25 de Abril. A partir daí a inspiração voou, outras prioridades apareceram e a poesia deixou de ser uma necessidade na minha vida, pelo menos como produtor, pois como leitor continuo a acompanhar e a ler regularmente. mais uma vez quardei essas revistas, mas as voltas acabaram por dar descaminho, não tendo agora qualquer registo dessa dezenas de textos que a revista publicou. Após o 25 de Abril a revista deu lugar a uma empresa que organizou concertos, importou musica, editou livros e ainda hoje tem um site na internet.

segunda-feira, 24 de março de 2014

Detestável

Uma coisa é certa, temos um primeiro ministro que detesta o seu povo. Ao dizer hoje que nunca haverá uma Europa com mutualização da dívida, como querem os signatários do manifesto, e ainda bem pois os povos que poupam não têm da pagar para os que gastam, ao dizer mais ou menos isto, assina por baixo quando chamam preguiçosos e gastadores aos portugueses. Dizer isto num dia em que se sabe que um quinto dos portugueses está em risco de pobreza, mostra quanto este liberal de Massamá os detesta. Como destesta os reformados, os pensionistas os funcionários públicos. Infelizmente não tem oposição à altura.

O meu 25 de Abril (28)

Íamos entrar em 1972, e este ano seria de grande viragem e contestação, seja por motivos académicos, ou políticos, pois uns e outros estavam sempre muito ligados. Em geral tudo começava por motivos académicos, um exame, umas aulas, um professor que exacerbava o sem campo de acção, ao que se juntava numa segunda fase mais um motivo de solidariedade com algo que se passava noutra escola, o que conduzia a situações de entrada em aulas para "dar" informações, e isto era assegurado pelas "comissões de curso", depois fazia--se reunião de curso, ou se se justificava, RGA, reunião geral de alunos, onde se aprovavam moções, propostas ou formas de luta se se justificava, que depois se tinham de pôr em prática, e assim a "panela" ía tomando pressão, até que um pequeno acontecimento era o pretexto para saltar a tampa, numa panela que já fervia. Claro que diversas forças políticas estavam presentes, de forma clara ou mais ou menos encapotada, e faziam do meio universitário seu campo de actuação, vistas as liberdades de que ali se usufruía, conquistadas pelos estudantes, mas também cedidas ao abrigo da já falada autonomia universitária. Claro, quando o molho entornava, lá se ía a autonomia, e a polícia entrava com ou senm informação prévia, o que levou a muitas demissões de Directores e Reitores. Aconteceu aqui onde o Prof. Fraústo da Silva, acabou por sair após uma invasão da polícia, que ficou instalada uns dias no interior, procurando controlar e apanhar alguns "agitadores" como na altura se chamava. O ano de 1972 fica ainda marcado pela morte de Ribeiro Santos, de que apenas tive notícia, a nada assisti, na altura trabalhava e muito do tempo aproveitava-o para isso. Deu-se em Económicas, na sequência da "detenção" pelos estudantes de uma pessoa que retirava apontamentos dos cartazes expostos, tido por "bufo", o que levou a que uma brigada da PIDE lá se deslocasse para identificar e levar o himem (era um pide também, provavaelmente). Perante a presença da brigada os ânimos agitaram-se, nomeadamente pela facção do MRPP, na altura com presença forte em Direito e outras escolas, e os pides ao se sentirem ameaçados sacam da arma e dispsrsm város tiros, e um deles atinge mortalmente e à queima roupa Ribeiro Santos, estudante e dirigente associativo de Direito, e fere José Lamego. Esta morte, pela primeira vez dava-se um caso assim na Universidade, ocorreu a 12 de Outubro de 1972, mudou de forma definitiva a relação já degradada das autoridades com a Universidade e teve reflexos em todas as escolas. O MRPP tirou o maior partido que pôde, até hoje, pois ainda existe (!!!), A partir daí o ambiente torna-se irrespirável. Meetings, RGAs, Plenários, a propósito ou não, tudo acabaria por desiquilibrar o equilibrio instável que se tinha vivido nos últimos anos. Eu ía entrar já no 3º ano. em 72/73, e estava agora na comissão de curso do" terceiro de electricidade" como se dizia. esse ano lectivo iria ser anulado, e o Técnico encerrado devido às condições de total instabilidade que se iriam viver na Escola. O novo director Sales Luís, iria conseguir reabri-la mas pagaria caro a ousadia. De facto esta morte haveria de ser o detonador de tudo, pois na altura o que sucedia numa escola reflectia-se logo em toda a academia.

Dona Ofélia

Ontem no telejornal, e até parecia algo de normal, víamos a Dona Ofélia e empurrar a cadeira de rodas da sua filha com deficiência, pela Estrada Nacional, numa distância de dez quilómetros, para a levar ao Centro de Saúde. A Dona Ofélia é uma sexagenária, ou talvez mais, a sua filha deverá ter qurenta e alguns anos, reside numa aldeia onde um médico que ía uma vez por semana deixou de ir, e agora tem de se deslocar à sede do CS. Vive de uma pequena pensão e 12 euros de táxi fazem toda a diferença. A imagem que passou rápida, marcou a minha cabeça, pela "aparente normalidade". Pela falta de revolta. Esta a "nova normalidade" de que PPC fala ? Mas ninguém imagina que é mais fácil e mais barato deslocar uma equipa até às pessoas, do que deslocar todas as pessoas até junto dessa equipa ? A imagens das muitas Donas Ofélias a empurrar uma cadeira de rodas, não farão tocar algures campaínhas nos responsáveis ?

domingo, 23 de março de 2014

O meu 25 de Abril (27)

Recuperámos daquela noite intensa após duas horas de sono. com umas sandes e uns sumos levados de casa, não se podia comprar fora, e a manhã foi passada na Praia da Rainha, em Cascais onde se dormiu até à hora do almoço, o qual se fez na praia com o resto do que se levava no saco, O segundo dia começava pelas 16h e ía ser mais curto e menos marcante. As pessoas também eram menos,  muitos não tinham resistido à avalanche musical da noite anterior, estavam esgotados, outros já tinham tido a sua dose de jazz, se calhar para o resto da vida, nós mantinhamos de pé, para ouvir um segundo dia clássico, com o Phil Woods, e um grande quinteto onde se salientou o baterista Daniel Humair, francês, que após um solo de bateria deixou no chão uma poça de suor tal a intensidade da sua musica. O Festival fechou então com o grupo de estrelas, Giants of Jazz, onde se salientava Dizzie Gillespie, com as suas reconhecidas bochechas no trompete, Art Blakey, Thelonius Monk, Sonny Stitt, e outros. Era um jazz clássico, be bop, servido por grandes lendas, imaginemos Monk, talvez o maior pianista do jazz de sempre, ainda vivo, mas já em fim de carreira Art, um dos maiores bateristas de todos os tempos, Dizzie um trompetista alegre, exuberante e perfecionista, Sonny um saxofonista de todos os tempos na nossa frente, iniciados nas lides, a ouvir semelhantes executantes, que desperdício !!!  Claro que a nossa preparação não nos permitiu dar o devido valor a estes enormes instrumentistas, pois o nosso gosto musical ainda estava muito influenciado pelo rock, nem ao reportório de standards que nos apresentavam, onde não faltavam os maiores temas do jazz americano de todas as épocas. Uma verdadeira enciclopédia passada de forma ilustrada pelos nossos olhos e ouvidos. No final mais assobios para o Nuno Martins que insistia em ser o "locutor" de serviço e palmas para Villas Boas, o homem que afinal colocou as sementes do jazz no coração de muitos milhares de portugueses, umas floriram outras não. Claro podem perguntar o que tem o 25 de Abril a ver com isto tudo ? Quem pensa que o 25 de Abril foi apenas um golpe militar, claro que não sabe responder a esta pergunta. Na realidade jamais o jazz se deu bem com a ditadura, e quanto mais se ouvia jazz, o que passou a acontecer mais desde este fim de semana, mais se voava contra as regras da ditadura, as suas musicas arrumadinhas, o seu nacional cançonetismo. "Jazz é cultura" dizia-se, mas é também e sobretudo libertação. Nos anos seguintes continuaria o Festival, com grandes nomes e eu ainda assisti a várias edições, lembro Elvin Jones ou Jean Luc Ponty e David Brubeck em 1972, e manteve-se em Cascais até 1980. Mas jamais se esquecerá este fim de semana irrepetível e "irrevogável" das nossa vidas.

sábado, 22 de março de 2014

Lopes Graça

Parece que ainda há quem se lembre do compositor falecido há 20 anos, e exemplo de coragem e de como a arte pode ajudar a mudança num país cinzento e obscuro. Acaba de sair, na prestigiada editora discográfica Naxos, a obra completa para violino solo, e violino e piano do compositor português, que não estava ainda disponível. As obras são executadas por Bruno Monteiro em violino e João Paulo Santos em piano e estão disponíveis para quem quiser ouvir, por apenas 7 euros na FNAC, num único CD com cerca de 70 minutos de música. É raro e tem muita qualidade, raro por ser afinal uma editora alemã a valorizar a obra clássica de Lopes Graça, e tem qualidade por os executantes serem do melhor em Portugal. Quanto à música é para quem gosta, como sempre sucede com a arte.

O meu 25 de Abril (26)

E a função ía começar de choque !!! Depois de uma espera insuportável de mais de uma hora e meia, eis que alguém anuncia o inicio do Festival, o Vilas Boas, o Nuno Martins (sempre assobiado cada vez que aparecia com seu ar engravatado), não me recordo. Eis que entram os músicos, e em último ali estava a lenda em pessoa, Miles Davis, vestido em pele, calças justas acetinadas verdes, faiscante como uma estrela pop, nada a imagem do músico de jazz, do tal que era cultura. Curvado com o trompete ora apontado para o tecto ora para o chão arrancava dele sonoridades eléctricas que jamais voltarei a ouvir, a música era de uma grande intensidade, e quando ele pára, após um longo solo inicial, acompanhado de muitos Kw de guitarra, baixo elétrico e orgão, eis que um senhor de carapinha inicia um solo de piano elétrico de uma beleza rara, de uma subtilizeza, em crescendo, que nos fazia escutar um fraseado nítido e limpido, enquanto, qual cisne negro, a cabeça se inclinava para trás. Não o conhecíamos, mas estávamos perante outra lenda, que "apenas" acompanhava Miles, era um tal Keith Jarrett, ainda hoje um grandessíssimo pianista. Após mais de hora e meia em que o publico delirou com tal função, ela interrompe-se. Sabe-se agora que Miles exigiu ser o primeiro a tocar, pois sabia que era o primeiro festival de jazz realizado no país e não aceitava que ninguêm tocasse antes dele, pois era mesmo o maior musico de jazz vivo, tinha tocado com todos os que contavam, Parker, Monk, Coltrane, Ellington, e agora inventava um nova forma, a "fusão", criticada por muitos por ser comercial, quase pop, mas apreciada por muitos mais, desta exigência tudo se teve de alterar para satisfazer sua alteza real !!!
Após mais uma hora, já próxima a meia noite, entra um pequeno grupo,  mais aparentado ao que era um quarteto de jazz. Três negros, um branco, espartanos, viscerais, sofridos, agressivos, música incapaz de se domar, bater o pé, seguir um ritmo que mudava sempre e uma bateria que apenas saltitava de forma a não permitir qualquer lógica, sentido ou repetibilidade. O homem que agredia com o sax era Ornette Coleman, super negro, suado, outro de corneta em punho era Dewey Redman, a bateria negra saltitante Ed Blackwell, "bem negro" como o nome indicava, e o branco, nem mais que Charlie Haden, que na segunda música faz a célebre dedicatória aos movimentos de Angola e Moçambique, facto que marcaria para sempre o festival, altura em que a sala vem abaixo, situação que o conduz no final do espectáculo à PIDE, e no dia seguinte durante a manhã a um avião para Londres.
Ainda a noite ía a meio, tocou um quarteto onde ponderava um sax de quem hoje é Rão Kiao, mas na altura tinha outro nome e ainda não apanhara as canas da Índia para fazer flautas, e termina a noite pelas 5 da manhã com Dexter Gordon, acompanhado por Marcos Resende, entre outros.
Para quem tinha estado tantos anos sem nada, foi uma verdadeira "barrigada" irrepetível, pois cada músico era um monstro sagrado do jazz. O calor era intenso, o suor estava por todo o lado, os músicos deram o máximo, perceberam a intensidade do momento, o público estava esgotado.
Dormimos duas horas num saco cama, nas reentrancias do Pavilhão, local que tinha sido aproveitado por outros para "urinar" pois WC havia poucos ou nenhuns, pelo que o cheiro era tão intenso quanto o sono. Foi uma overdose, uma noite mágica e poderosa que jamais se repetiu por cá. A adrenalina do proibido transposto enchia os nossos corações. Enquanto nós estávamos ali muitos da nossa idade estavam no capim numa guerra de que nada entendiam. Ainda assim estávamos melhor.

sexta-feira, 21 de março de 2014

Bach

Dia 21 de março é o dia de muita coisa, da floresta, da árvore, da poesia, da primavera, este ano foi ontem, do começo da Feira do Porco Alentejano aqui no burgo, mas destas datas eu saliento ainda outra, Johann Sebastien Bach, sem dúvida o músico maior, aquele a quem Deus encomendou que criasse a música em seu nome, para que pudesse mostrar aos homens a sua voz, faria hoje 329 anos, nasceu a 21 de Março de 1685. Fica aqui um pouco da voz de Deus.

O meu 25 de Abril (25)

Retomo estas crónicas "pessoais e transmissíveis" do meu 25 de Abril com um dos seus pontos altos, foi o fim de semana que mudou muito na minha ainda curta vida. Fim de semana de 21 e 22 de Novembro de 1971. E o evento chamou-se Cascais Jazz, na sua primeira edição. Sobre este fim de semana muito haveria a dizer e muito está dito em muitos artigos e publicações, por isso tentarei fazer o que tenho feito nestes post, sair do óbvio que toda a gente lerá nos multiplos documentos e mostrar o lado pessoal, a minha vivência do que aconteceu.

Porque chegámos lá ? Bom, alguns meses antes tinha comprado na Feira da Ladra um LP de Charlie Parker e outro de um baterista cujo nome não me recordo (já me lembrei, Max Roach...). Foi o primeiro contacto com este estilo de música, que na altura estranhei, pois os meus ouvidos ainda estavam no rock e pop. Havia os "5 minutos de jazz", que ouvia por vezes, e havia a curiosidade que esta música e seus executantes me provocavam. Daí quando anunciado este festival, coisa quase impossivel no Portugal daqueles anos, dissemos que tinhamos de ir. Havia alguns amigos interessados que me dispenso de citar, mas seriamos uns 5 ou 6. Alguns nomes não nos eram estranhos caso de Miles Davis, ou Ornette.

Como chegámos lá ?  Morávamos na margem sul, no Monte da Caparica, e o festival iniciava-se pelas 21h30, pelo que saímos da casa pelas 5 da tarde, apesar do nosso programa não ser bem visto pelos pais, meus e do meu amigo e vizinho, lá fomos de saco às costas, pois teríamos 2 dias pela frente, em que não viriamos a casa, hoje tudo normal, mas na altura nada era assim . Após muitas explicações lá fomos para o primeiro festival de jazz que se realizava em  Portugal. Quatro meses antes tinha havido Vilar de MOuros, mas nóa não tinhamos ido, o dinheiro não chegava.  De autocarro, barco, e junto do Cais de Sodré apanhámos uma boleia para Cascais, pois tinhamos entretanto encontrado os restantes amigos. Pelas 20h, já estavamos lá à porta.

Como era o local ? O Pavilhão do Dramático de Cascais estava ainda em construção, e estava a ser concluido à pressa para o Festival. Ele tinha sido projectado para uma Universíada que acabou por nunca se realizar por razões óbvias. A poeira era imensa, o cimento estava por todo o lado, o desconforto era total, e o pavilhão ainda precisava de muito para ser terminado. Após algum tempo, fomos procurando a entrada, que se fez directamente para a bancada, e fomos procurar um local onde se pudesse dormir por ali, nas reentrâncias do pavilhão. Este festival tinha ainda uma outra estreia no horizonte que afinal, e ainda bem, nunca se concretizou. A possibilidade de experimentar uns "fumos" que ficou adiada "sine die", por falta de "produto".

Assim entrámos num pavilhão poeirento, o ar pouco respirável, um palco improvisado, carregado de equipamento, e instalámo-nos nas bancadas onde os últimos assentamentos de laje ainda estavam visiveis e o cimento mal secara. Nem sei quando custou a entrada, mas penso que os dois dias foram 40 escudos, coisa a confirmar. Em frente da nossa bancada o palco ocupava toda a bancada em frente, e uma faixa anunciava as datas do festival, o local, e a frase que publicitava o festival, "Jazz é cultura". E era mesmo e que cultura de vida para os meus 19 anos, quinze dias antes tinha entrado no IST e aquela praxe de que já falei tinha-me ensinado, se não sabia já, como as coisas eram neste país. Mas estava longe de pressentir o que se iria passar quando começasse a "função".

Estevas

Não serão as primeiras mas eis que chega o tempo delas. Pela beira das estradas, começamos a ver estas flores frágeis que rápidamente perdem as suas pétalas, e um cheiro intenso a seiva.  Em breve estarão por todo o lado e como flocos de algodão apresentam um campo salpicado de branco. Vantagem nossa que podemos ver, cheirar e encher os pulmões. Cuidado com as alergias...

quinta-feira, 20 de março de 2014

Out of road

Quem se proposer ir de Ourique a Almodôvar, passando pela Aldeia dos Fernandes, tem agora uma prenda suplementar, devido a obras (supõe.se...) nas estrada municipal que estava intransitável, faz-se agora um desvio de mais de 5 quilómetros pelo meio dos campos em estradas boas para uma prova de todo o terreno. Há muito pó e no fim temos de ir lavar o carro, mas a prenda mesmo é ter acesso a estas vistas, pena ser forçado e não por opção de cada um. Mas enfim, eu que sou um optimista nato julgo sempre que muitas vezes temos de piorar para conseguir melhorar. Já agora fica aqui uma das fotos que tirei hoje nesse estradão agora parte da estrada municipal. Vejamos isto pela positiva, certo ?

Primavera

Começou agorinha mesmo, mas a natureza já dá sinais, como se vê nesta foto tirada há pouco mais de uma hora quando pensei ser boa ideia ir ver a chegada da esperada estação, e onde se pode ver melhor que nos campos alentejanos ? Nem é preciso sair da estrada... Agora começam as flores por todo o lado, e os campos começam a agradecer a água que caiu.

Regressar

É sempre bom regressar, depois de um dia aflitivo e cheio de sofrimentos diversos. Uma via sacra que há que percorrer, ainda por cima calhou no dia do pai. Foi bom pois tive companhia de uma das filhas ao almoço, e a oferta da praxe, que foi uma colecção de DVD da série "Gerra dos tronos", que está agora na berra e eu nunca vi nem sei do que se trata, só sei que estamos no domínio do fantástico. De resto regressarei à minha segunda casa dentro de um mês, prazo encurtado devido a alguns sintomas que exigem um "programa cautelar" como agora se diz. E é tudo !!!

quarta-feira, 19 de março de 2014

O meu 25 de Abril (24)

 Todos tivemos de um modo ou de outro na vida o nosso "momento che guevara". Um momento em que nos deixámos "apaixonar" por essa imagem mitica, essa visão da revolução romântica, solidária e amigável, poder ser revolucionário no seu quarto, onde posters e imagens substituem práticas mais perigosas na época. Eu também tive esse momento onde fui acompanhado pelo meu grande amigo na altura. Estávamos pelo ano de 1970, a informação de Cuba era pouca, no entanto Portugal até tinha relações diplomáticas com Cuba. Infelizmente quando chegou o "momento guevara" já guevara tinha morrido, havia pouco tempo, pois foi "executado" nas florestas da Bolívia, em 9 de Outubro de 1967. Lemos muito do pouco que havia, eu tinha comprado na Livrelco, de que era sócio, um livro que na altura deu grande brado nas esquerdas, edição brasileira, proibidisimo, "Revolução na revolução", de Regis Debray, intelectual francês, mais tarde preso na Bolívia e que escreveu sobre os métodos, organização e forma de actuar das guerrilhas na América Latina, algo que Marx ou Engels não tinham previsto, pois tudo nestes teóricos apontava para a luta de classes, da classe operária contra a exploração capitalista, mas nas florestas da Bolívia ou da Colômbia não havia nem classe operária, nem capitalismo como eles o entendiam, pois a falada acumulação primitiva de capital nem sequer tinha ocorrido. Assim os métodos seriam outros, e fundados sobre os direitos dos camponeses à terra, era então preciso uma verdadeira revolução no que se sabia da revolução, já neste altura anquilosada nos países ditos da "cortina de ferro". Aos jovens, como eu, arrepiava só de pensar no que eram os regimes burocráticos e autoritários do leste europeu, a intervenção na Checoslováquia tinha mostrado a sua face hedionda, e a imagem irreverente, jovem e solidária da revolução cubana atraía-nos como atraiu os intelectuais europeus que deram durante muitos anos, talvez demais, o beneficio da duvida a Castro, desculpando as atrocidades que já se conheciam, mas que se levavam à conta de propaganda imperialista. Como estávamos enganados !!! Mas esse fascínio que durou até os primeiros anos do Técnico, encheu os nossos dias de sonhos românticos de Sierras Maestras em Castro Daire !!! No Técnico acabámos por ser informados que Castro era igual a Brezhnev, e que Cuba era uma ditadura insuportável, tudo menos aquele paraíso que nos vendiam no merchandising da revolução. O meu amigo e eu passámos a papel quimico o livro de Regis Debray, para que os nossos amigos o tivessem. Perda de tempo. Mais tarde o próprio Regis Debray renegou tudo o que escreveu. ( PS: para ser simpático com as minhas boas memórias daqueles dias, ilustro este post com uma das cançoes mais bonitas escritas para Cuba, e é portuguesa, dos Dead Combo, "Cuba 1970", lindíssima. )

terça-feira, 18 de março de 2014

No aproveitar ...

Muitas caravanas na Barragem do Monte da Rocha na sua totalidade estrangeiros, alemães, holandeses, que aproveitam o que muitos de nós desprezamos, o sol, o ar puro, a vastidão do lençol de água, o exercício fisico, e mesmo se as condições não são as melhores, para eles está bem. Para nós podia estar melhor se tivessemos outras condições a propor, que pudessem ser valorizadas, e mesmo a cerca de um quilómetro ainda estão começadas e não acabadas, abandonadas há anos, as obras de um "projecto" de parque de campismo inacabado. Enfim é o nosso país cheio de projectos inacabados de que ninguém fala.

O meu 25 de Abril (23)

  A musica, os autores, os músicos, os "baladeiros", foram uma das frentes mais interessantes na resistência contra o regime. Se num primeiro tempo tinhamos apenas as baladas com letras carregadas de tristeza, revolta ou protesto, nos finais de anos 60, que chegavam a muitos poucos e sem êxito popular, nem divulgação fora das universidades ou algumas sociedades de cultura popular, a partir dos ans 70 tudo se alterou, e essas músicas aumentaram a sua eficácia através de arranjos musicais bem feitos, letras, embora rebuscadas mas de grande eficácia, o que pouco a pouco impôs muitos músicos e deu-lhes uma popularidade ao nível dos "nacional cançonetistas", que distraiam o povão com as suas "larachas". De tal forma que o próprio Festival da Canção RTP foi invadido por música deste tipo e que lograram vencer alguns deles, como a Desfolhada, Festa da Vida, Tourada, entre outras canções que eram um canto inteligente e só por isso se distinguiam. Em 1972 Portugal esteve presente no Festival da Canção do Rio de Janeiro, e foi organizada uma votação num jornal, penso que seria no "Diário Popular", e os votos eram enviadas em boletins colados em postais, e ganhou nem mais nem menos que José Afonso, e logo com uma música nada neutra ou folclórica, "A morte saiu à rua", que tinha saido no LP "Eu vou ser como a toupeira" de 1972. A canção era alusiva ao assassinato do pintor comunista Dias Coelho em Alcantara, e a sua letra não deixava crédito por mãos alheias, nem falava por meias palavras. E lá foi José Afonso representar Portugal, para espanto de todos. Nunca mais até ao 25 de Abril as coisas foram as mesmas, e essas músicas ouviam-se agora com alguma facilidade nas rádios, eram sucesso junto das pessoas e vendiam bem, como agora não se vende. Até Marcello Caetano falou delas numa das suas conversas, referindo que se tratavam de "factores de desmoralização da nação". Vinha de facto aí um dilúvio que ele nem ninguêm conseguia parar.

segunda-feira, 17 de março de 2014

Ausência

Mais uma visita para fazer a "revisão" e desta muito há a rever, por isso os próximos dois dias são de quase silêncio. Veremos como saio de mais um dia que começa a ser insuportável e intenso.

O meu 25 de Abril (22)

Prosseguia o meu primeiro ano no IST, em 1971/72, após uma "praxe" de choque... o ano decorria com alguma normalidade, tirando algumas pontuais questões académicas, sem grandes consequências. No entanto nesta altura a solidariedade académica era uma realidade, e os problemas das outras faculdades acabavam por se estender também ao Técnico, embora nesta fase Económicas e Direito eram sempre as faculdades mais reinvidicativas. A informação era permanente e na Associação de Estudantes dispunha-se de acesso a tudo o que se passava no país e nomeadamente noticias da guerra colonial, coisa que naturalmente muito nos preocupava, agora que já ía fazer 20 anos, e que iria pedir o meu primeiro adiamento do serviço militar, para não ser incorporado nesse mesmo ano, o que dependia dos resultados académicos obtidos. Na Associação de tudo se tratava, comia-se, compravam-se as "sebentas" ou "as folhas", pelas quais se estudava, muitas eram apenas cópias de documentos manuscritos, tiravamos cópias, faziam-se reuniões, tiravam-se comunicados, compravam-se livros, entre eles muitos dos que estavam "fora do mercado", discutia-se política, futebol, namorava-se, fazia-se desporto, havia uma piscina, não para mim. Era um local onde nos sentiamos livres, num país que era o contrário disso tudo. Um dia, entro na papelaria da Associação, que se encontrava no pavilhão central, e estavam os balcões forrados com as capas de dois discos LP, em cores preta e branca, e que jamais encontrara, sendo que os nomes também me eram desconhecidos. Os titulos eram "Mudam-se os tempos mudam-se as vontades", belo titulo de um poma de Camões, e  "Sobreviventes", de dois autores caidos de céu, José Mário Branco, o primeiro, e Sérgio Godinho. Eram os seus primeiros LP, e estavam ali à venda porquê não se vendiam nas lojas normais de discos, nas discotecas, na altura a palavra significava "casa onde se vendiam discos" e não " casa escura onde se passa ruido insuportável". Custavam 180 escudos cada, muito dinheiro, mas dado que agora trabalhava, acabei por comprar os dois, julgo que um deles muito mais tarde. Ouvi e era diferente de tudo o que escutara. Já não eram "baladeiros" em que a "mensagem" valia tudo, e musicalmente era pobre. Ali não. A mensagem era forte, mas embrulhada num arranjo musical rico e moderno, com influencia pop, sobretudo o tal Sérgio Godinho, que também era autor de algumas das músicas de José Mário Branco. Eram duas obras notáveis, e ainda hoje o são. Arrepiava quando  começava a ouvir o disco do José Mario e o som era de um comboio a chegar à Gare de Austerlitz, ou a música simples do  Sérgio cuja letra se resumia a uma frase repetida N vezes e era   " Aprende a nadar companheiro, que a liberdade está a passar por aqui" acompanhada de excelentes solos de guitarra elétrica e baixo. Cinco estrelas, depois de se ouvirem estes discos sentia-se uma força de derrubar montanhas. Tudo isto se encontrava na minha velha AEIST...

domingo, 16 de março de 2014

Rocha

Regressei hoje a um percurso antigo na barragem do Monte da Rocha, e que o frio, a humidade, as forças em falta, a vista, não me tinham permitido há largos meses. Estava com curiosidade dado o Inverno e os seus dias chuvosos. Na realidade hoje o dia cheira a Primavera que afinal vai começar já na prõxima 6ª feira. Fiquei admirado com o nível da barragem, apesar da chuva das ultimas semanas, está baixo para um final de Inverno. De resto tudo agradável e os caravanistas já começaram a chegar e a ocupar os espaços do seu campismo selvagem, com que nós. bondosos portugueses vamos contemporizando, pois adoramos ser visitados e recolher os ossos que nos atiram, numa actividade que podia ser bem mais lucrativa e organizada, com reflexos na economia local. Mas somos sempre os mesmos a estarmos muito contentes com os serviços mínimos. Bonita manhã !!!

O meu 25 de Abril (21)

Hoje seria dificil fugir a falar do golpe das Caldas, que ocorreu a 16 de Março de 1974, isto é faz hoje 40 anos, e ocorreu cerca de mês e meio antes do 25 de Abril. Dizem que acabou por ajudar, acabando por ser um ensaio geral "involuntário" para o 25 de Abril. Penso que hoje ainda não se saberá tudo acerca deste golpe, mas sabe-se que este golpe não tinha um suporte adequado, desde logo não havia qualquer programa ou ideia do que se faria com o poder que se conquistasse. Terão pensado que se saía para a rua e os restantes quartéis iriam seguir o exemplo, numa lógica expontaneísta. Na altura, associou-se o golpe a uma reação ao "beija mão" que os oficiais generais fizeram a Marcello Caetano e que ficou baptizado com o nome de "brigada do reumático", a que faltaram Spínola e Costa Gomes, o que sopunha a sua demissão que veio de facto a ocorrer. De resto o assunto foi abordado pela imprensa e televisão, onde se divulgou um comunicado oficial, com a posição do Governo, e no DN até fez capa, o que mostra que a censura já não estava nos "melhores" dias. Na altura a dúvida era sempre de que lado soprava o vento, isto é, saber se o golpe era a favor ou contra Marcello, pois a sua figura estava muito desgastada, seja junto dos portugueses em geral, seja junto dos oficiais mais reacionários que o viam como alguém algo hesitante, nomeadamente na política para as colónias, onde sabe-se hoje, terá admitido dar a independência a alguns territórios, nomeadamente a Guiné e o ter contemporizado com o livro de Spínola, sem o demitir. Nós sentíamos que o país estava sobre brasas, e nunca como naqueles primeiros meses de 1974 se sentia já no ar o cheiro da democracia, tudo estava como um balde com muitos furos "escorrendo" água por todo o lado, apesar das tentativas da PIDE, e de outros elementos da repressão para os tapar. Sabe-se agora que o verdadeiro 25 de Abril já estava em elevado estado de maturidade.  Não seria preciso esperar muito tempo, apenas 40 dias para que o regime soçobrasse sem uma bala sem que um dedo se levantasse para o defender.

sábado, 15 de março de 2014

Puro

Nunca tinha ouvido um CD dos Xutos. Conheço algumas das musicas mas ouvir inteiro e várias vezes "jamais". Estou a ouvir o último. É rock puro e duro para quem gosta, não é o meu forte. Reconheço um trabalho incrível de profissionalismo, bom som, canções bem feitas, letras com pés e cabeça, dentro do quadro rebelde que sempre foi o seu, graficamente bonito, enfim muitos anos de estrada, vê-se, e quem sou eu para o dizer, em concreto 35 anos de carreira dos "senhores comendadores". Para mim um pouco repetitivo, nalgumas musicas parece ouvir-se o som de outras que todos conhecemos, mas rock não é jazz ! Uns verdadeiros profissionalões e fiquei satisfeito com a estreia, mais vale tarde do que nunca. Então para ouvir no carro é ótimo !!!

Torre

Uma das imagens mais tutelares da vila de Ourique, já há algum tempo pintada e recuperada no seu aspecto exterior, do seu interior nada sei, mas que se apresenta agora sem aquele ar pouco cuidado que tinha. Hoje de manhã uma foto que aqui fica e de que gosto. Afinal com pouco faz-se muito.

sexta-feira, 14 de março de 2014

O meu 25 de Abril (20)

Nesta altura, inicio dos anos 70,  liam-se jornais, ou pelo menos eu lia e muitas pessoas liam também, de manhã e à tardinha, as ruas, estações de comboios, metro ou barcos, tinham sempre ardinas com os seus pregões que lhe davam uma vida particular. Não havia os meios de hoje, a televisão não tinha credibilidade e as rádios um pouco melhor sobretudo o RCP. Nos jornais havia de tudo, desde os porta vozes do regime, "Diário da Manhã" por exemplo, jornais da situação, quase todos, dominados pela auto censura ou pela censura se a outra não funcionasse, seria o caso do Notícias, Século, Capital, Popular, havia depois outros diários que ousavam um pouco mais, caso do "Diário de Lisboa" e, a partir de 1972 o "República" que julgo que só nessa altura passou a diário, sob a direção de Raul Rego, com grande sucesso, e que era clara e assumidamente um jornal oposicionista, e que eu comprava regularmente, não todos os dias, pois para tal o dinheiro não chegava. O jornal, fundado por António José de Almeida em 1911, era de conteúdo noticioso, mas continha também artigos doutrinários, onde predominava a tendência socialista. Depois de uma vida mais ou menos larvar, até 1972, quando penso que se publicava três vezes por semana (não estou certo desta periodicidade), passa a diário e relança-se com uma nova direcção e uma redação dirigida por Mário Mesquita. Dentro dos limites da censura, e com os truques com que a tentava contornar, conseguia publicar matérias muito interessantes. Só num aspecto a censura era implacável, a guerra colonial, daí nada de noticias, nada de dados, nada de números, não era possivel ter qualquer informação não controlada, era assunto tabu em si mesmo. Quanto ao resto o jornal "Républica" era muito livre, o que naturalmente provocava problemas, cortes, atrasos na saída do jornal, fatal num jornal diário. O jornal terminou em 1976, após um caso de tomada pelo PCP, e com a democracia os partidos começarem a ter uma enome influência, no caso o velho "Républica" deu origem ao "Jornal Novo" e à "Luta", diário que pouco duraram.

Coadopção

Dizem muitas vezes que os políticos não sabem o que querem, não acredito, e diria mesmo que sabem até bem demais. Isso é o que acontece aos deputados de PSD que sempre quiseram rejeitar o projecto da coadopção do PS, que é uma simples questão de humanidade e de defesa da criança colocada em certas situações não por sua vontade, mas por decisão de um adulto que a adoptou, coisa legal e recomendável independentemente da orientação sexual. Acontece que da primeira votação, 28 deputadps do PSD, achando que os votos dos outros chegavam para derrotar a proposta de lei, tiraram fim de semana antecipado e os votos afinal não chegaram e deu-se a aprovação na generalidade. Querendo fazer uma saída "democrática" engendraram um referendo que sabiam ser apenas um ganhar tempo e um disfarce para a sua negligência, Como todos sabiam o referendo foi declarado inconstitucional. Agora, decidiram retomar o processo inicial e concluir com a votação na especialidade que decorreu hoje. Aqui o toca a reunir funcionou, e todos se apresentaram a votos, para derrotar a proposta de lei e respiraram de alívio. Salvaram a face, deram uns ares de democracia, e finalmente "desaprovaram" o que já tinham aprovado, e as suas consciências ficaram tranquilas. Quem se "lixa" são as crianças adoptadas, pois se o pai ou mãe adoptiva têm algum problema grave, causando a sua morte por exemplo, arriscam a ir parar a uma instituição, mesmo que esse pai ou mãe adoptiva se tenha casado ou viva em união de facto, pois o outro elemento do casal não tem qualquer direito sobre a criança. Só pergunto, como o outro, "Porquê?", quem ficou a ganhar, as consciências dos senhores deputados ?

O meu 25 de Abril (19)

Tinha entrado para o IST e após os incidentes iniciais, as coisas lá acalmaram um pouco, mas foi sol de pouca dura. Em breve a situação haveria de se complicar, mas agora não vou falar disso. Já lá iremos. Vou referir outro aspecto que muito contribuiu para a minha "emancipação", e ocorreu em 1971, que foi ter começado a trabalhar. Já tinha dado algumas explicações, coisas sem importância, mas a partir do inicio de 1971 constatei que na empresa onde o meu pai trabalhava, os CTT, abriam a possibilidade a filhos de funcionário que estivessem a frequentar a universidade de trabalharam à hora, quer como estudantes de engenharia assalariados, nas áreas técnicas, quer como "encaminhadores postais", nas estacões de CTT ou nas grandes centrais de distribuição ou separação de correio. Era assim que funcionava a "familia telegrafo postal", de que já aqui falei, e era uma medida positiva, embora matizada de algum paternalismo fascistóide, mas aproveitei. Inscrevi-me e tinha todas as condições, era filho de empregado, tinha 18 anos e era universitário. Assim comecei a trabalhar no dia 1 de Maio de 1971, pois o primeiro de Maio não era feriado, era um dia como os outros, a fazer 3 horas por dia, na Estação dos CTT do Terreiro do Paço, hoje Páteo da Galé, a ganhar 12 escudos por hora, todos os dias. Pelo menos até Outubro tinha um rendimento para o bolso, podia pagar os estudos e mais umas benesses por fora. Como "encaminhador postal" cobria necessidades não permanentes, isto é, férias, doença, maternidade, pelo que não havia garantia, e o trabalho no inicio consistia em "preencher o modelo 46", que era um livro onde se registava manualmente um a um, todos dados dos remetentes e destinatários de correio registado, aquilo que hoje são os utentes que fazem. Eram centenas de objectos postais, que se punham em fila e nós escreviamos no livro mod. 46, e só depois disso se podia expedir o correio. Era fácil embora chato e era uma coisa que os funcionários detestavam fazer... Mais tarde fui fazer outras coisa, incluindo atendimento ao público. Esta minha entrada permitiu, compatibilizando com as aulas, ganhar dinheiro, mas sobretudo um contacto com o mundo laboral real, e com muitos colegas universitários que também trabalhavam, o que permitia um óptimo convivio, grandes conversas, e muita consciencialização política, pois todos estavam a estudar e o ambiente em todas as faculdades era irrespirável. Acabei  por me manter neste trabalho alguns anos, de forma intermitente, até vir a ser funcionário efectivo, coisa que aconteceu em 1975, e da experiência lá vivida guardo fortes recordações, boas, muito boas e nenhuma má. Esta possibilidade abriu muitas portas do meu 25 Abril.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Velho

Uma coisa é já ter feito os sessenta, outra ser velho, ou estar acabado. Hoje em que uma das filhas faz 36 anos, olho e quase não acredito, Como já cheguei aqui ? É coisa séria, são quase 40 anos, e quando se olha para trás o que fica de firme ? Casas que se compraram e se venderam, empregos que se perderam, casamentos que acabaram, doenças que mudaram a vida e a limitaram a garantir rotinas, afinal o que fica, o que permanece ? Contar os aniversários dos filhos !

O meu 25 de Abril (18)

Em 1970 estaria a terminar o Liceu, e pelos resultados obtidos, terminei o antigo 7ºano com 14 valores, o que me dispensou do exame de admissão à Universidade, pelo que me poderia inscrever em qualquer Faculdade da área das Ciências. Talvez por exclusão de partes optei pelo IST, onde em Novembro de 1970 entrei de uma forma tumultuosa logo no primeiro dia. Já referi este assunto num post designado por Praxes. Tendo havido ainda na sequência da Crise Académica de 69 várias ações repressivas, no primeiro dia de aulas, o Instituto foi cercado pela Polícia, fechado, até à retirada de uns cartazes que a Associação de Estudantes, a minha velha AEIST, colocara nos muros da escola virados para o exterior, com frases que denunciavam essa repressão. Na altura os muros eram para manter caiados e calados, sem cartazes, frases bombásticas ou informação de conteudo político. Assim a policia foi chamada, e nós caloiros, ficámos um dia fechados dentro das instalações da Escola, e só a retirada voluntária dos cartazes impediu a invasão pelas "forças da ordem" armadas de bastões, prontas para a "porrada". Esta foi a minha praxe, felizmente, a minha passagem pelo IIL já me tinha preparado para estas "doçuras", só não esperava que fosse logo no primeiro dia. A partir daí já sabíanos com o que contar e os 3 anos seguintes, extertor da ditadura, foram um incontável rol de invasões policiais, encerramentos forçados, greves, anulação de um ano lectivo, ocupação durante meses pelas forças policiais, contratação de gorilas, gritos, correrias, bastonadas, câmaras de filmar para espiar a estudantada, de tudo houve, expulsões e suspensões, processos disciplinares, detenções  e também algumas aulas e algumas horas de estudo. Eu próprio acabei suspenso por 3 meses, mas disso falarei mais tarde. Era a imagem da repressão.

quarta-feira, 12 de março de 2014

O meu 25 de Abril (17)

Como já se percebeu o meu 25 de Abril fez-se em várias frentes, sendo que a informação e a formação de uma opinião esclarecida, foi uma das frentes que mais valor acrescentou. O regime tudo fazia para fazer face a essa frente procurando impedir a livre informação, não propondo outra informação, mas pela repressão, proibição e criação de index de obras que não podiam estar disponíveis pois "causavam dano", as tais que estavam nos catálogos identificadas com "fora de mercado" e que eram as que tinham maior procura, pois apesar disso encontravam-se em algumas livrarias e alfarrabistas.  Claro que perante tais argumentos a derrota era certa, tudo seria uma questão de tempo. No dominio da formação da opinião em termos de politica internacional, dado o miserabilismo da imprensa, podia-se dizer que não havia uma opinião formada, para além do obscurantismo e do anti-comunismo primário, de um regime que via agitadores em todo o lado, e tudo resumia a guerras de arlequim e manjerona, entre os bons (nós...) e os maus ( todos os outros...)  Para a formação da opinião esclarecida muito contribuiu a edição dos Cadernos D. Quixote, da editora do mesmo nome, que ainda hoje existe integrada agora no Grupo Leya. A criação dessa editora, e o teor progressivo que tinha na altura, deve-se a uma pessoa de grande dimensão, que faleceu de forma trágica e prematura, Snu Abecassis. Os Cadernos D. Quixote editavam à volta de temas da actualidade, cada caderno dedicava-se a um tema, e dele publicavam artigos já publicados na imprensa internacional, ou em livro, dando, acerca do mesmo assunto multiplas visões. Eram pequenos, baratos e de leitura fácil, e os temas iam das Drogas, ao Biafra, Suécia, Bolivia, Guevara, Cuba, a Pílula, Tito e a Jugoslávia, Crises Monetárias, a Grécia, e muitos outros. Não posso dizer exactamente entre que período se publicaram, mas sei que em 1970 já os lia mensalmente, e que se mantiveram até ao 25 de Abril. A chegada da liberdade de imprensa retirou espaço a esta publicação. Eram assim uma espécie de Seleções de Readers Digest, mas em versão pregressista e sem o longo braço do imperialismo americano, que na altura se colava a essa publicação editada pela ITT. Durante anos mantive esses pequenos cadernos que se mostravam actuais para além da data em que se publicaram. A D. Quixote de Snu deixa muitas saudades, publicou outras belas colecções acessíveis a todos, de que mais tarde falarei. Fazem parte do meu 25 de Abril.

terça-feira, 11 de março de 2014

Cangalheiros

Quando estão a lançar o seu quinto album, promovido como poucos, deixo aqui uma banda sonora de que gosto muito, do duo Dead Combo. "A Bunch of Meninos" é o título estranho deste registo, igual ao do album, e do que tenho ouvido continua a sonoridade metálica, que os caracteriza e que a mim me lembra a musica de "western", a que se acresce o seu ar de cangalheiros, ou não fossem um duo da "morte". No entanto o funeral parece ainda estar muito longe.

O meu 25 de Abril (16)


E outros que chegavam trazendo pelo escuro
de forjados cartões de identidade
carregada de risco a claridade
dos milhões de estrelas do futuro

Vinham de longe com o pão e o vinho
que faltava na pátria e a firmeza
bastante para manter acesa
a alma dos caídos pelo caminho

Vinham sujos da marcha transformados
por mal comerem mal dormirem
O afã de perseguidos perseguirem
os mudava em deslumbrantes deslumbrados

Oh camaradas desse tempo quando
a toda a volta era só perigo
e cada amigo era um amigo
e a nossa vida sombra clareando

Mário Dionísio, in Terceira idade, 1982
Tela de Mário Dionísio, Mulher de mãos gretadas. 1950

O meu 25 de Abril (15)

De certa forma passou-me ao lado um dos acontecimentos mais marcantes de 1969 na luta contra a ditadura. Eu estava no Liceu de Oeiras, e o impacto que esses acontecimentos tinham na comunicação social era o minimo possível e sempre manipulado e reduzindo tudo a uma luta entre os agitadores e as autoridades que só queriam preservar o bem estar público. Claro que ninguém acreditava nessa patranha. Tinha ainda 16 anos, e tudo o que acompanhei foi pela imprensa, nomeadamente a mais livre, que eu já consumia. Falo daquilo que ficou conhecido pela Crise Académica de 1969 e passou-se em Coimbra, na Universidade mais antiga e tradicional do país. A crise veio na sequência de acontecimentos anteriores em que durante vários anos a Associação de Estudantes tinha sido gerida por uma Comissão Administartiva, e tinha acabado de haver eleições, após anos havia uma direcção eleita, vários professores e alunos tinham sido expulsos pelas suas opções políticas. Foi neste contexto que a Direcção da Associação de Estudantes, que representava os milhares de alunos da Universidade, foi convidada para a inauguração do edifício de Matemáticas, tendo manifestado interesse em falar na cerimónia de inauguração, pedido que foi recusado, pois iria estar presente o senhor Presidente da República, mais alto magistrado da nação, e os ministros da Educação e Obras Públicas. A inauguração ía ser a 17 de Abril de 1969. Do que se passou daí até Julho hoje conhecemos quase tudo, desde a interrupção da cerimónia, com o pedido da palavra pelo Presidente da Associação, a sua recusa, a saída intempestiva das autoridades, a inauguração feita apenas pelos estudantes, as manifestações e a repressão que se seguiu, a greve aos exames, com Coimbra ocupada pelas forças da "ordem", como se fosse uma zona de guerra, e culminou com a grande manifestação na final da Taça de Portugal de futebol de 1969, em que jogou a Académica, e que foi das únicas que não foram transmitidas em directo pela TV, e que não contou com a presença de qualquer autoruidade. A ditadura era capaz de tudo para calar a voz das pessoas, e quando não o conseguia fazer, fazia tudo para que o país nada soubesse, e deixava os portugueses que protestavam a falar sozinhos, ao que se seguia a repressão, com prisões e outras "meiguices". A nada disto assisti, em nada participei e o que sei só soube mais tarde. Verdade é que a ditadura conseguia mesmo abafar o eco dos protestos, mas muitos já tinham percebido que os estudantes não eram apenas um grupo de agitadores. Aqui podem ver uma excelente reportagem de fotos obtidas por alunos dos acontecimentos de Coimbra. Vale a pena dar uma vista de olhos. O meu 25 de Abril estava a ser cada vez mais necessário. Os estudantes envolvidos ou foram suspensos, expulsos, ou incorporados à força no serviço militar.

segunda-feira, 10 de março de 2014

58 centimos

É quanto vale por dia ter 3 filhos ou mais no país em que a natalidade entrou em falência. Segundo hoje nos "dias do avesso", rubrica na Antena 1, foi indicado um número que nos dá a nota da grandeza das políticas de natalidade para que a crise demográfica se resolva. Então, os nossos políticos, na fiscalidade, permitem a quem tem 3 filhos ou mais fazer uma dedução à colecta do IRS que permite pagar menos 58 centimos por dia de IRS pelos 3 ou mais filhos. Uma excelente ajuda que vai permitir comprar todos os dias um litro de leite, a dividir pelos 3 meninos ou meninas. Quem é amigo, quem é ?

Vista Geral

Uma imagem da vila, dá uma ideia a quem conhece mal, da dimensão da zona urbana, mas sobretudo da planicie que hoje de manhã se perdia num horizonte claro mas frio. Vê-se apenas um pouco da torre que sobressai na zona urbana. Foto obtida no miradouro daí estarmos mais alto que a própria torre. Dispensávamos os postes e cabos da electricidade que nestas vilas e aldeias já deviam estar enterrados há muito.

O meu 25 de Abril (14)

Chegamos  agora ao porto mais seguro da luta contra o regime fascizante que nos governava naqueles anos. Estou a falar de um orgão de informação com décadas de existência sempre ligado à luta pelos direitos democráticos, liberdade e direitos cívicos, que todos sabiam aglutinar a inteligência portuguesa, de todas as tendências, em particular a socialista. Falo da revista "Seara Nova". Só mesmo a democracia a acabou por derrubar, curioso !!! Era leitor de todos os seus números que saiam mensalmente, e de alguns livros pois também era uma editora, cuja maioria dos livros estavam "fora do mercado", já expliquei o que isto queria dizer. Vinha dos tempos idos da República, e tinha aglutinado os derrotados em 28 de maio de 1926, sendo que nos últimos anos antes do 25 de Abril se tornou menos intelectual e chegando a um publico mais vasto de estudantes, operários, sindicalistas, para além dos intelectuais, seu público de sempre. Fortemente censurada, penso que a maioria dos censores nem percebia nada do que lá estava escrito, mas na dúvida, cortava-se. A revista foi fundada em 1921, por Raul Proença, Comecei a lê-la nos anos de 1970, quando trabalhava nos CTT, e era-me oferecida pelas pessoas que iam expedir a revista para os seus assinantes, que eram muitos e em todo o mundo. Depois tornou-se um bom hábito e passei a comprar e lia tudo, embora muitos dos artigos serem "doutrinários", isto é desenvolviam temas de política numa lógica bem marcada pela ideologia. Não era uma revista de informação mas continha muitos dos temas que para mim, nos meus 17 anos tinham interesse. A revista após o 25 de Abril tornou-se mais ortodoxa e tomada pela ideologia do PCP, e em 1979 terminou. segundo sei em 85 retomou, mas breve começou a publicar um numero por ano, e agora ainda publica 4 números por ano e tem um site na internet.

domingo, 9 de março de 2014

Recanto

Um recanto da vila onde em grande plano se vê um dos candeeiros tipicos do local. Pena que este recanto esteja praticamente abandonado, bem como esta bela moradia urbana entaipada e em abandono galopante. Já agora repare-se como o edificio ao fundo tapa boa parte da torre de relógio, uma ausência da lógica do urbanismo paisagista, pois por mais que se queira, neste angulo não se consegue ver a torre e é pena. Temos de facto aqui vários erros, mas não se podem resolver apenas com intervenções do municipio, pois contra a lógica dos privados nada feito.

O meu 25 de Abril (13)

Do meu 25 de Abril faz parte integrante e teve uma enorme importância para a minha formação, educação política e informação, um jornal que na altura uma alta autoridade chamou "o pasquim cor de rosa". Não sei bem como me tornei assinante, mas julgo  que veio do tempo em que estive no IIL e um dos meus amigos mostrou-mo. Passados uns tempos, talvez já em 1970, quando já tinha uma ocupação que me dava uns trocos, decidi assinar o tal pasquim. Ainda não disse o nome mas é o "Comércio do Funchal". Um jornal editado no Funchal, onde a censura estava subrepresentada, o jornal, apesar do seu impacto nacional que teve nos anos antes do 25 de Abril, era "visado" como um jornal regional, que na realidade não era. O jornal tinha um formato pequeno, era impresso em papel cor de rosa e o director era um jornalista hoje reconhecidissimo, Vicente Jorge Silva. Mas outros por lá passaram. Se calhar assinar não era uma coisa boa, pois a partir de certa altura as policias sabiam que quem lia este jornal era mais do que "cor de rosa", mas dadas as dificuldades de o encontrar, passei a assinar e mantive essa assinatura até depois do 25 Abril altura em que o MRPP tomou conta e como era hábito da casa tornaram o jornal numa porta voz sectário da sua bizarra politica, ou seja mataram-no transformando-o naquilo que alguém chamou "vómito cor de rosa". O jornal no seu formato da altura, renasceu em Janeiro de 1967 e resultou da compra de um titulo já existente. Apresentava interessantes dossiers acerca do país mas também da politica internacional, rubricas que inspiraram a imprensa nacional, e textos de intervenção política. Era "extraordinário e quase miraculoso" no dizer de Mário Sacramento, segundo julgo e foi a maior e mais engenhosa finta à censura. Quando o recebia, era semanário, lia tudo de uma ponta à outra, e para quem lia também os outros jornais, era uma leitura refrescante, como um copo de água fresca, num ar quase irrespirável. Guardei religiosamente durante muitos anos a coleção de todos os exemplares, até que as voltas da vida lhe deram descaminho e lá se foi na voragem. Fica uma enorme e grata recordação da alegria que me trazia.

sábado, 8 de março de 2014

O meu 25 de Abril (12)

Ano de 1969 foi ano de eleições. Sim, também havia eleições, mas quase não se dava por elas. Para mim, nos meus 16 para 17 anos, agora no Liceu, após a experiência choque no IIL, estas coisas já não me passavam ao lado. As "eleições" foram a 26 de Outubro de 1969, antecedidas do Congresso Republicano que decorreu em Aveiro em 16 e 17 de Maio. Foram talvez as primeiras "eleições" que acompanhei, tanto quanto era possível, pois a informação era escassa e manipulada, e  as eleições uma total mistificação. Recordo-me que o recenceamento era dificultado, e havia alguns que eram recenceados automaticamente, caso dos funcionários públicos, tidos por tropa de choque do regime. Uma vez recenceados, e foram cerca de um milhão de portugueses em quase 9 milhões, eram as forças concorrentes que faziam chegar por correio os seus boletins de voto aos votantes, pois estes não estavam disponíveis nas mesas de voto. Assim em 1969 houve quatro forças concorrentes, não eram partidos, pois estes não tinham existência legal, e eram a União Nacional, do regime, a CDE, mais próxima do Partido Comunista, a CEUD, dos socialistas, e a Monárquica. Estas forças se queriam que se votasse nelas tinham de enviar os seus boletins aos eleitores, para o que tinham de ter acesso aos cadernos eleitorais, coisa que lhes era dificultada ao máximo, com embustes legais. Assim as pessoas mesmo que quisessem votar nas oposições não podiam pois não dispunham dos seus boletins de voto, e os da União Nacional chegavam sempre. Desta forma votava-se e era fácil saber quem votava e em quem. Como só depois dos 21 anos se votava, para mim era uma miragem. Entretanto havia expectativa por serem as primeiras eleições na primavera marcelista. Puro engano, tudo era igual. No final a UN teve 86% dos votos e 100% dos lugares. O que eu não sabia é que entre os eleitos da UN estavam nomes como Francisco Sá Carneiro, Pinto Balsemão, Pinto Leite, Miller Guerra, Magalhães Mota, entre outros, que tinham sido convidados como independentes, e que haveriam de constituir a chamada "ala liberal" que muitas dores de cabeça acabaram por dar, tornando-se, como diziam os ultras, "cavalos de tróia" dentro da Assembleia Nacional, e que acabaram por trazer para a ribalta muitas das aspirações das pessoas, com a vantagem de, sendo deputados, as suas intervenções passarem na comunicação social sem cortes. Ficaram célebres os "debates" de Sá Carneiro, com o ultra-montano Casal Ribeiro, e outros fascistóides. Quatro anos mais tarde ía-se repetir a farsa mas aí já sem estes actores. Eram assim estes anos que se aproximavam do meu 25 de Abril.

Mulheres

No dia internacional da mulher, será que ainda se justifica, quero recordar, sem particularizar, claro, a minha relação especial com esses seres tão extraordinários quanto preversos, tão inteligentes quanto manipuladores, tão vaidosos quanto convencidos, tão superiores quanto "fracos". Recordo assim dois casamentos, um que terminou de forma trágica, outro que se extinguiu e soçobrou ao tamanho das ondas. Duas filhas, nada de rapazes, mais três uniões de facto, quanto tive médico de familia seria mulher, e ainda é, quando o meu coração soçobrou tinha de ser "uma" cardiologista para me salvar das garras da morte certa, se somar uma oftalmologista, uma estomatologista, e uma podologista, todas muito competentes, apenas somaria que a experiência profissional mais marcante da minha vida passou-se num departamento onde era o único homem, e era o responsável, para cinco mulheres e se trabalhava como nunca e sem borbulhas. Curioso que quando tive animais de estimação foi uma gatinha siamesa e uma cadelita. Ora bolas é quase perseguição !!!

sexta-feira, 7 de março de 2014

USF's mais um fracasso ?

Não gosto de visões impressionistas, mas segundo noticias de hoje, as USF (Uhidades de Saúde Familiar) são mais um "flop", pois o Tribunal de Contas auditou e refere apenas mais despesa, opacidade e menos resultados. O que foi criado para resolver a falta de médicos de familia, acaba por consumir mais recursos e deixar os utentes com menos médicos (mesmo depois da limpeza dos ficheiros...). Se assim for, é mais uma das grandes "ideias de país" do engenheiro Sócrates que dá numa grande barracada. Depois das ideias do Magalhães, do Via CTT, das autoestradas paralelas ou das virtuais, caso  da Sines Beja, do TGV, do aeroporto primeiro na Ota depois em Alcochete, agora no meio da água, da terceira travessia do Tejo, tudo "grandes ideias" onde se gastaram milhões e milhões em estudos, projectos, assessorias e consultorias, e até produção, deixando o pagamento para os outros, agora as sempre veneradas USF revelam-se mais um caso de ineficácia e ineficiência. É pena. Afinal acusam os outros de não terem ideias, mas destas ideias não precisamos.

O meu 25 de Abril (11)

Há programas de televisão que ajudaram a ver a realidade de outra forma, estou a lembrar-me dos da National Geographic, mas não é esse que vou evocar, mas sim o Zip Zip, que mostrou Portugal no final dos anos 60 através de depoimentos, musicos e personalidades que até aí não tinham tido tempo de antena bem como alguns de outras musicas, como Caetano Veloso, Gilberto Gil ou George Fame. Via sempre todas as segundas feiras, o programa que era gravado ao sábado no Teatro Villarett, e após, ao que se sabe, dura negociação com a PIDE e a Comissão de Exame Prévio, ia para o ar, nas partes que eram aceites por aquelas "boas almas", na segunda, de forma a perturbar o menos possivel "a paz e a tranquilidade publica". Era assim que se fazia naqueles tempos. Nem se podia imaginar um programa destes em directo, não fosse algum agitador aproveitar o "ao vivo" para algum comentário mais vivo... e agitar a paz dos cemitérios. Esteve no ar entre 24 de Maio e 29 de Dezembro de 1969, e por ele passaram alguns dos músicos que formaram a geração dos "baladeiros", aliás ridicularizados num sketch de Raul Solnado, animador do programa ao lado de Carlos Cruz e Fialho Gouveia. O programa surgiu como que caído do céu. Estamos no inicio do marcelismo e a parede abriu umas brechas para dar ao regime uma válvula de escape para toda a tensão acumulada. Segundo Mário Castrim, em crónica de Maio 69,   

"Na vida há destas coisas, como diz o compadre que todos temos. O programa de João Villaret foi das poucas coisas vivas e populares que aconteceram na Televisão Portuguesa. Passaram-se muitos anos antes que surgisse qualquer coisa que pudesse dar-nos oportunidade de falar de vida e de popularidade. Parece que essa oportunidade existe agora - e a ela encontra-se ligado ainda o nome de "Villaret". Não há dúvida: "Zip" nasceu sob bom signo."

Hoje revi a entrevista de Almada Negreiros no primeiro Zip Zip, que ficou como ícone para sempre deste programa, e pude ver como a entrevista foi um jogo de palavras, pois nem os entrevistadores estavam preparados para a fazer, e as perguntas eram triviais ou mesmo absurdas, e o Mestre Almada devia estar longe de pensar que viria à televisão no final da sua vida, faleceu um ano depois, falando numa linguagem quase cifrada. Era o acontecia quando a liberdade não se respirava como o ar, ninguém estava preparado para ela. O Zip Zip ajudou a perceber que havia outro Portugal para além das loas dos oito séculos de história, do império do Minho a Timor, da emigração a salto, ou do congressos da oposição de quatro em quatro anos, quando era, e onde havia uns minutos de ar fresco. Foi um vendaval que deixou toda a gente com fome de liberdade, e mal surgiu a oportunidade  saciaram-se.

Tesouros

Fui ver "Caçadores de tesouros", último filme realizado e interpretado por George Clooney. O argumento, conforme agora parece estar na moda, é baseado numa história verídica, quando no final da Segunda Guerra se constittuiu uma grupo aomposto por especialistas em arte, a que foi dada a formação militar, para procurar, recuperar e devolver obras de arte roubadas pelos nazis de instituições e coleções particulares, procurando ainda impedir que Hitler realizasse a sua promessa de  mandar destruir todas essas obras se viesse a ser morto. Por essa causa deram-se vidas, e o filme evoca esses bravos, que sendo homens fora da idade militar, acabaram por colocar os seus conhecimentos ao serviço da proteção património. Claro que uma boa ideia não chega para fazer um grande filme, que não é, fica no entanto a evocação de um acontecimento desconhecido para muitos.

quinta-feira, 6 de março de 2014

O meu 25 de Abril (10)

"Quem faz um filho fá-lo por gosto" eis a frase que deixou o pais bacoco de 1969 em estado de choque. Ainda por cima dita numa canção de Simone de Oliveira, seria o mesmo se fosse dita por outra qualquer mulher, pois não era suposto a mulher fazer "por gosto", mas por obrigação, pelo superior interesse da nação em haver a maternidade, que "dá braços à terra e soldados à nação". A frase era de um poetastro ilustre desconhecido chamado Ary dos Santos, nessa altura não era considerado perigoso comunista, nem perverso homosexual, pois nesses tempos essas duas palavras oficialmente não existiam, no lugar de "comunistas" havia "traidores à pátria", no lugar de homosexuais havia "panelei..."  O festival da Canção de 1969, ganho por "Desfolhada Portuguesa", em versão Eurovision, e por Simone, deu brado, pois o Festival era na altura o maior acontecimento televisivo do ano, para além do futebol, e em directo com muito público constituido por convidados, pois directos com público sem ser escolhido era coisa de evitar. A partir de certo momento o nível de qualidade das canções presentes subiu muito, pois os mais talentosos jovens autores começaram a apostar nesta via, num país onde poucas portas estavam abertas. Voltando à "Desfolhada", independente da qualidade da musica e letra, a música é de Nuno Nazareth Fernandes, a reacção mostra o nível dos valores da época, a visão da sexualidade vigente, a perspectiva que se tinha do papel da mulher, e isto não era apenas um questão de governo ou de políticas, mas era assim que o povo pensava, que o povo sentia e vivia, mesmo o povo urbano e mais educado, continuava a ter uma visão castradora, prepotente e falsamente moralizadora da sexualidade e em particular da feminina. Virgindade era virtude, mãe solteira era drama, adultério era crime, violência doméstica sobre as mulheres era socialmente aceitável como prerrogativa masculina, a mulher tem de ser "autorizada" para sair ao estrangeiro, para trabalhar, o casamento é impeditivo para ser enfermeira ou hospedeira de bordo. Como é que se poderia aceitar que fazer filhos fosse "um gosto". Que escandaleira... fica aqui a versão Eurovision da dita "Desfolhada", em que se pode ver Simone "ao vivo e a cores" em 1969, coisa que só cá chegará 12 ou 13 anos mais tarde !!! Simone também faz parte do meu 25 de Abril.

quarta-feira, 5 de março de 2014

Pancada

Ficámos agora a saber o que queria dizer PPC, quando dizia que as pancadas seguintes doem mais pois o corpo já  está castigado. Pois é, queria dizer que vinha aí nova pancada para os "suspeitos do costume", tornando definitivo aquilo que dizia ser transitório, e recorde-se aquilo que o Tribunal Constitucional só aprovou por ser transitório. Está a pisar o risco! Diz, não podemos voltar ao nivel salarial de 2011, nem ao nivel de pensões de 2010, pois mas podemos manter os niveis de pagamento das PPP que asseguram rendibilidades escandalosas superiores a 10%, podemos manter pagamentos do poço sem fundo do BPN, podemos manter as rendas pornográficas pagas a EDP, e outros produtores de "energias limpas" que nas compensações que recebem acabam por realizar os seus resultados não a produzir energia mas a investir e especular com os milhões de rendas que acumularam, podemos manter pagamentos em tráfego de auto-estradas onde poucos passam, e o contribuinte paga, e até a minha mãe que vive, infelizmente,  sentada num sofá, paga autoestrada. Tenham mas é vergonha.

Trabalhos

Exposição, por aqui, também apresenta os primeiros trabalhos dos participantes no meu "atelier" (chamemos assim, sem pompa..), são as telas que se podem ver nas paredes e no biombo e são dos diversos membros do grupo constituido na Loja Social em Ourique. Mas para "ajudar à missa" uma das participantes também trouxe os seus "naperons" e "toalha de mesa" que ela própria pinta à mão. Aqui o conceito de arte e de artesanato tocam-se muito, mas nisso eu não vejo nada de mal. Mau é fazer coisas feias, ocupar o tempo a ver novelas da treta, envelhecer com a desocupação, inutilidade e abandono, e encharcar-se em anti depressivos. Neste aspecto as actividades criativas são uma grande fisoterapia, e uma benesse para a mente. E haver quem as queira expôr e instituições que as exponham é uma coisa muito boa. Para ser franco até deveriam ser comparticipadas pois pouparia dinheiro ao SNS e tornaria as pessoas um pouco mais felizes !!!

O meu 25 de Abril (9)

Esta minha narrativa não é cronológica. No entanto o tempo continua a ser a maior referência para que nem eu nem os hipotéticos leitores, se os há, se percam. Estamos a iniciar 1969, um jovem de 16 anos (eu mesmo...) voltou ao Liceu, agora com uma outra consciência de si e um vocabulário enriquecido. Agora pensava ( mas não dizia...) guerra colonial, e não guerra do ultramar, guerrilheiro em vez de terrorista, ditadura e não estado novo, opositores e não traidores, entre outros. O marcelismo estava a dar os primeiros passos, e depois de anos de escuridão, servidão e obscurantismo, os portugueses viam com esperança qualquer pequeno sinal, os politizados esses já sabiam o que a casa gastava, mas eram uma "imensa minoria", Marcelo tinha uma imagem simpática a muitos, tomou medidas cosméticas, como chamar DGS à conhecida PIDE, Exame Prévio à censura, e ia prepara-se para acabar com as "provincias ultramarinas" e criar " estados portugueses do ultramar", dando alguma autonomia simbólica, iria substituir a caquética União Nacional, pela Acção Nacional Popular. Claro que só os pacóvios acreditavam nalguma abertura real, até porque como se dizia os "ultras" nunca o permitiriam, dizia algum povo de forma piedosa, e salvaguardando o principio que Marcelo defendia, a chamada "evolução na continuidade", da qual até eu com os meus 16 anitos só via continuidade e nenhuma evolução. Mas não quero deixar de evocar aqui uma iniciativa de Marcelo que teve un grande efeito sobre muitas pessoas. Falo aqui das famigeradas "Conversas em Famíla". Tiveram a sua primeira "sessão" em 8 de Janeiro de 1969.  Realizaram-se 16 conversas sendo a última a 28 de Março de 1974, cerca de um mês antes do 25 de Abril. Cerca de 3 por ano. Eu assisti a todas, incluindo a primeira, em que pai, mãe e filho se juntaram em frente da TV a preto e branco para escutar. Marcelo tinha a certeza de que o divórcio com o povo era total, que a politica do governo era mal vista, aliás quando de alguém se dizia "ser político" queria dizer ser oposiçionista, democrata, contra o governo, e era uma perigosa acusação!!!  Os governantes não eram tidos como políticos, porque governar era assim uma espécie de emanação do divino, o "pesado fardo da governação" como diziam, para o qual o povo não tinha sequer de ser consultado pois não percebia nada do assunto. Nas "conversas em família" Marcelo Caetano aparecia sozinho, sentado num cadeirão e falava para as pessoas como um ser humano, coisa que muita gente não imaginava, que os governantes fossem pessoas de carne e osso, falava olhos nos olhos, para dar credibilidade ao discurso, para falar com sinceridade dos problemas da governação, sempre de uma forma que seria incontestável, não pela veracidade e consistência da discurso mas pela identificação do receptor com a imagem passada pelo emissor que nunca poderia ser entendida por faltar à verdade. A essa identificação ficou a dever-se parte do sucesso, e ainda hoje muitos portugueses referem esses dias de esperança, que afinal não se justificavam, pois do que se tratava era de fazer o mesmo que Salazar, mas com outra roupagem. As "Conversa em Família" marcaram muitos pontos no ranking da hipocrisia e da mistificação, mas acho que deram algum gás a uma governação já muito desgastada. Ficam aqui algumas imagens "comentadas" de uma dessas conversas. Os temas iam da politica do Ultramar, à economia, educação, em linguagem pedagógica, em que uma mente superior "ensinava" um povo ignorante e até se permitia ameaçar os católicos, coisa que caía bem em algumas pessoas... só ouvindo !

terça-feira, 4 de março de 2014

O meu 25 de Abril (8)

Em 1968 fiz 16 anos. Nada compara um jovem de 16 anos nesse ano já ido, com um jovem de 16 anos dos nossos dias. Naquela altura as preocupações eram outras, e quando falo de um jovem de 16 anos hoje estes jovens têm uma maior igualdade entre si, o estilo de vida é mais normalizado, no bom e no mau. Naqueles anos não era assim. Muitos aos 16 anos trabalhavam, poucos estavam na escola, o nível de escolaridade era baixissimo, o nível cultural e de conhecimento do mundo diminuto, mas no domínio dos valores  estaríamos melhor, "o respeitinho era muito bonito", defendia-se "pobrete mas alegrete", a autoridade de pais, familiares, professores era indiscutivel, e no horizonte o espectro da guerra despontava, pois em breve estaria lá. O ano no IIL terminara e ía voltar ao Liceu de Oeiras. Durante o verão o tempo decorria lentamente, nesse verão descobri um livro e um escritor que haveria de me marcar durante alguns anos, estou a falar de Jorge Amado. Não passo sem contar como cheguei lá, pois isso é o mais interesante. Nesse ano fui pela primeira vez à Feira do Livro. Pouco se podia comprar pois o meu pai ganhava pouco e a mãe estava em casa. Trouxe de lá um catálogo de uma editora já desaparecida a Europa América, e nesse catálogo anunciava-se que se podia fazer uma compra de dez livros, escolhidos do catálogo, e pagar em mensalidades. E, após falar com os pais, a contragosto lá aceitaram a ideia, isso de crédito não se sabia o que era, e a prestações comprava-se um frigorifico, mas livros ??? Assim foi, escolhi dez livros, o meu pai assinou um papel que lá estava, enviei e fiquei a pagar 18 escudos todos os meses nos correios. A escolha tinha de ser criteriosa, e no meio veio Jorge Amado, Jean Paul Sartre, Alves Redol, entre outros. Jorge Amado vinha representado por um clássico que li num instante nesse verão e me impressionou muito, "Gabriela, Cravo e Canela". Até aí pouco mais teria lido que Júlio Dinis, Camilo ou Eça, que se lia no Liceu, mas isto era outra coisa, tinha um gosto diferente, era uma linguagem nova, e aí começou a minha ligação com Jorge Amado, que me levou mais tarde a ler mais, até culminar na leitura dos "Subterraneos da Liberdade" (em 3 volumes), mas só depois do meu 25 de Abril, pois naquela altura estava "fora do mercado", assim apareciam nos catálogos os livros que estavam proibidos, e estes 3 livros estava proibidissimos. E assim durante este verão começou uma relação com o livro que se mantém até hoje. Assim quando muito mais tarde a primeira telenovela brasileira em Portugal foi "Gabriela" eu seria dos muito poucos portugueses que sabiam o que era, e já a tinha lido há muito tempo. Esta e muitas outras leituras fizeram o meu 25 de Abril, aquele que se passou na minha cabeça. A imagem que coloco é a do livro que li, 1ª edição em Portugal de 1966, uma bela capa, das poucas capas desta obra onde não aparece a Sónia Braga ...